Em nova versão
As pessoas que convivem comigo são unânimes em dizer: a Marcinha mudou. Talvez por isso eu não escreva há algum tempo. Não percebo mudança qualquer. Ou não quero perceber.
É verdade que na minha vida muita coisa está diferente. Consegui, enfim, terminar meu trabalho de conclusão de curso e agora sou uma Jornalista. O mais legal disso é que o blog que você está lendo foi uma peça mais do que importante para eu assegurar meu diploma: suas páginas virtuais foram reunidas e transformadas num livrinho de crônicas. Mérito meu e de todas as pessoas que um dia já dedicaram um minuto de seu tempo e mandaram recados me incentivando a fazer isso. Um pecadinho do meu livro é de cada um de vocês – obrigada.
O que eu posso dizer é que agora me sinto livre. Terminar a faculdade era um fantasma que vinha me assombrando cada vez mais assustadoramente. E, mesmo que eu ainda não esteja certa de que esta é realmente a profissão que quero seguir, agora me sinto livre para pensar o futuro com mais leveza. Para deixar meu lado aventureira voltar à tona e me levar a lugares que eu sempre sonhei conhecer.
Confesso que meu temperamento tem me surpreendido. Não sou mais tão inocente, tão indefesa, eu diria. Eu não brigo, mas me defendo. Falo alto, argumento. Fico braba, furiosa até. E estou gostando disso. Nada de acatar o que eu não aceito. Sou justa comigo e com minhas convicções.
Sou intolerante. Esse foi sempre o meu pior defeito e para deixar as coisas muito mais difíceis ele se agravou. O bom é que eu tenho consciência disso e tento dar uma controlada. Mas vira e mexe fecho o tempo porque a amiga não ligou na hora combinada, porque o namorado deu uma leve pisada na bola ou por qualquer razão que normalmente merececia uma alforria imediata. Claro que essas tolices não chegam a ser motivo para discussão, mas me fazem tirar o sorriso do rosto e decretar sem rodeios: ele só volta amanhã.
No meio de uma infinidade de nuances que indicam uma Marcinha diferente, tento encontrar minha nova personalidade. Lógico, carregada de certezas: somos muito daquilo que queremos ser, sou romântica sim – mas uma romântica que acima de tudo ama a si mesma, e, claro, não viveria sem príncipes, princesas e a possibilidade de transformar minha vida num conto de fadas de diversas histórias.
1 comment 14 14UTC Setembro 14UTC 2009
Marcia
O casamenteiro
Meu tio chegou da missa me trazendo um pãozinho que dizia ser bento. Era um dia de homenagens a Santo Antonio e come-lo era como uma promessa de sorte nos futuros enlaces. Ele me assegurou.
Puxei uma migalha e mastiguei sem vontade. Era tão duro que só poderia ser pão dormido. Como estava com fome e sem pretensão alguma de fazer uma desfeita ao casamenteiro, corri para a cozinha, recheei o pãozinho com queijo e coloquei para tostar.
Logo que acabei de me deliciar minha irmã me advertiu: o Santo poderia encarar aquilo como uma ofensa e não colocar nem por decreto um pretendente no meu caminho. Comer o pão seco e a seco era o que eu deveria ter feito. Um belo romance valeria o sacrifício.
Nunca fiz simpatia para Santo Antonio. Nunca fiz um pedido sequer. Não que eu não acredite no poder de suas benções. Pelo contrário, sei de muita gente que juntou os trapos e colocou até imagem do Santo no quarto. O problema é que eu não sou como a maioria. Talvez por isso eu esteja solteira (e serelepe) por algum tempo. Talvez por medo de deixar de ser eu mesma quando o tal pretendente chegar.
Brincar com as simpatias de Santo Antonio é uma forma de proteger o meu jeitinho do mundo. Além de que, é claro, se o pãozinho fosse mesmo me ajudar em alguma coisa certamente não seria de ontem.
2 comments 30 30UTC Julho 30UTC 2009
Marcia
Não leia
Não leia o meu blog. Se você quer namorar, casar e ter filhinhos comigo fique longe dos meus escritos.
Não me entenda mal. Não é que você não possa me conhecer ou saber as idéias que passam pela minha cabeça e coloco por aqui quase sem querer. Pelo contrário, se você pretende passar o resto dos seus dias ao meu lado nada mais justo do que saber de mim de trás para frente, conhecer os meus trejeitos, as minhas manias. O que me incomoda é você receber tudo assim, de mão beijada. Sem mistérios ou ilusões.
Tenho medo que com os textos você tire conclusões precipitadas sobre mim. Não quero rótulos ou expectativas. Quero é que as horas que passamos juntos atestem a minha personalidade. Quero que você dê o seu próprio veredicto.
Também é ruim pensar que você pode ficar chateado ou intrigado com algum texto. Ou ainda: é desconfortável crer que você pode tentar me ler nas entrelinhas, procurar supostas mensagens subliminares e entender tudo errado. Alem disso, não suporto interrogatórios inúteis. Perguntas sobre o que escrevo ou deixo de escrever podem me reprimir. Eu não quero censuras.
Compreendo e respeito a sua curiosidade. Eu admito que leria cada letrinha que você escrevesse. E faria de tudo para que você não percebesse, claro.
Então vamos combinar assim: você finge que não sabe do meu Diário e fica por isso mesmo.
2 comments 28 28UTC Julho 28UTC 2009
Marcia
Quando sou triste
Entre uma gargalhada e outra, numa mesa de bar, uma garota que conheço desde os tempos de colégio – e com quem pouco convivo – me perguntou se alguma vez na vida eu já fiquei triste.
A pergunta me espantou tanto que sequer consegui responder de imediato. Percebendo meu embaraço, ela prosseguiu: “sempre te vejo com um sorriso gigantesco no rosto, sempre soltas brincadeiras ou piadas, sempre tens uma palavra para alegrar e espantar qualquer desânimo”. A menina falava aquilo de forma tão positiva, de maneira tão carinhosa, que fiquei com dó não atender suas expectativas e esbocei um sorriso de concordância, daqueles com a boca retorcida.
Mas como sou péssima com mentiras ou omissões e não consigo manter segredos meus, vou logo assumir: eu fico triste, todos os dias, invariavelmente.
Consigo ser feliz e infeliz ao mesmo tempo. Livros e filmes, documentários e notícias, facilmente fazem brotar esses dois sentimentos aqui por dentro. Emoções perceptíveis a olho nu, meu olhar se nubla enquanto meu coração amolece meus lábios. Aliás, para saber de mim procure reparar nos meus olhos, eles não foram feitos para enganar.
Um pai de família que perde os limites da dignidade para sustentar seus filhos. Uma mentira mal contada por quem teme as conseqüências da verdade. Um amigo que parte para um rumo irreversível. Uma criança criada com muito dinheiro e pouco afeto. Um animalzinho mal tratado. Posso estar saltitante caminhando pela rua, mas é só presenciar uma cena que envolva qualquer desses diagnósticos para eu que absorva todo o drama dos outros e os recrie dentro de mim. Sou uma esponja sentimental. E sim: sou muito triste até na minha alegria.
Sou triste também quando o e-mail não chega, assim como o pagamento ou o namorado que prometera me ver no final de semana. Sou jururu quando a gripe me ataca, quando as amídalas trancam minha garganta e não consigo falar. Sou infeliz quando não sou ouvida, não sou amada, não sou amiga de quem confia em mim. Sou borocoxô quando me decepciono com minhas próprias atitudes ou com a falta delas. Sou melancólica no colorido do meu quarto, com as luzes apagadas e o som ligado.
Mas só me vê triste quem consegue me ver sozinha. Para as outras ocasiões é que foram criados os óculos escuros e os sorrisos amarelos.
4 comments 26 26UTC Maio 26UTC 2009
Marcia
Ciumenta
Eu sou ciumenta. Antes de virar as costas ou pular para a próxima crônica, espere: essa é uma revelação surpreendente. Quando o assunto sou eu, ao menos.
Desde que me conheço por gente sou toda garotona quando o assunto é namorado, ficante ou afim. Nunca fui a mais bonita, nem a mais querida, engraçada ou inteligente. Sou do time meio termo. Nunca fui rainha do colégio nem estrela do time de ginástica ou futebol. Mesmo assim a auto estima costuma estar lá em cima. Com os valores deturpados do mundo de hoje, meninas que não se expõem e passam longe de intrigas e fofoquinhas são raras. E disso eu sei que os meninos sabem bem.
A minha era adolescente já passou. Com ela foram os traumas e as inseguranças. Meus olhinhos brilham na hora de colocar um biquíni e ir para praia ou tomar um solzinho. Não ligo se a barriguinha está saliente ou se vão encontrar algum furinho de celulite. As chances de eu dar um chilique antes de ir para uma festa porque estou gorda ou não tenho roupa também são praticamente zero. Aprendi a valorizar o que há de bonito em mim mesmo que a balança aponte vários quilos a mais do que eu gostaria ou uma espinha resolva se apresentar justo no fim de semana. Sei que tudo que um petit pode conseguir é borrar a maquiagem e acabar com a noite.
Também sou contra namorados que se isolam do resto do mundo. Nada de agito ou junção com os amigos é o fim. Eu gosto de quem confia em mim. De quem sabe que posso sair, dançar, rir muito com as minhas amigas e chegar sã e salva em casa. De quem não precisa me ligar de cinco em cinco minutos para saber se estou comportadinha como ele espera. De quem não me acusa de mil e uma coisas só porque não atendi ao celular.
Mas experimente colocar toda a minha auto-suficiência à prova num namoro. Fico horas escolhendo a roupa que me deixa mais magra, quero conhecer os amigos e me arrepio só de pensar que ele pode estar justo com aquele que é mais saidinho, detesto quando ligo e o celular está desligado, belisco o braço quando ele estica os olhos para a bonitona que passou. E o pior: faço bico e encho os olhos de lágrimas quando alguma coisa me incomoda ou me sinto insegura.
Não sou ciumenta quando não envolvo. Quando não retorno a ligação de quem não cansa de me ligar, quando fico com quem não sai da minha volta. Quando eu gosto de verdade sou como qualquer mortal. E me mordo de ciúme.
Add comment 25 25UTC Maio 25UTC 2009
Marcia
Caminho certo
Acordei com um sentimento estranho. Coração acelerado, um friozinho pelo corpo que não me deixa ficar parada nem por um instante e um sorriso que teima em se manter no meu rosto. Sinto que posso tudo o que eu quiser. E quero tanta coisa.
Quero sair correndo por aí, sem rumo, sem direção. Fechar os olhos, abrir os braços e sentir o vento tocar minha pele, bagunçar meus cabelos. Quero me atirar no chão, rolar pela grama, gargalhar como criança. Quero me trancar no quarto, apagar as luzes, colocar o som no volume máximo e dançar sem parar até não ter mais energias para ficar em pé.
Quero saber tudo sobre todos os assuntos, experimentar coisas novas, sentir o intocável, avistar o que ninguém vê. Quero colocar uma mochila nas costas e viajar pelo mundo sem ter data para voltar. Quero estar com a cabeça livre de preocupações, sem dever satisfação do que faço ou deixo de fazer. Quero ficar sozinha, dormir na rede por horas, divagar a respeito da vida. Quero bobear com as pessoas que amo, falar sem parar, não ter tempo pra pensar em nada.
Impossível explicar, mais difícil ainda entender. Hoje acordei com vontade de ser feliz. De seguir no rumo certo. De sentir que posso tudo. Tudo o que eu lutar para conquistar. E mais do que isso: despertei com ânsia de viver e perceber que a felicidade não é um destino e sim o nosso caminho de todos os dias.
2 comments 24 24UTC Maio 24UTC 2009
Marcia
Implique comigo
Eu sou implicante. Experimente mandar em mim. Diga que não posso ou não devo, fale que não fica bem para uma menina da minha idade, insinue que não concorda com isso ou aquilo. E aposte para vencer: vou providenciar até o que não tenho vontade alguma de fazer só para provocar.
Se minha irmã grita e ordena que eu desligue imediatamente o telefone, pode saber que é aí que eu vou engrenar o papo. Pode não ter assunto, pode a pessoa do outro lado já ter até desligado. Não importa. Falo só com o aparelho se for preciso, mas não acato ordens nem aprovo gestos grosseiros.
Reclame do tamanho do meu decote ou do comprimento da minha saia e prepare-se para me ver mais periguete do que nunca na próxima vez. Proíba as festinhas com minhas amigas, discurse sobre o quanto é feio beber mais de um copo de cerveja ou voltar para casa depois das 4 da manhã. Exija que eu me comporte para ver o que é sair da linha.
Só não diga que está tudo bem. Não me aceite sem protestos. Não vale me desarmar.
3 comments 23 23UTC Maio 23UTC 2009
Marcia
Supresa
Às vezes tenho uma estranha impressão de que nada mais pode me surpreender. Sinto que não restam lágrimas ou esperanças, que não sobrou espaço para mais decepções, fantasias ou expectativas. Parece que eu espero mesmo que o improvável aconteça.
Talvez seja porque perdi as contas de quantas horas esperei sem saber, de quantas passagens só de ida tive que rasgar. Talvez porque decorei cada sonho que permanece adormecido, cada plano que nunca saiu do papel. Talvez porque eu não queira esquecê-los ou apenas me sinta impotente diante deles.
O destino fez questão de me demonstrar que os ventos podem mudar de direção a todo instante e que preciso estar preparada para desembarcar em qualquer praia. Já não me assusta a idéia de jogar fora o velho roteiro e rabiscar outra vez o meu caminho.
No entanto, devo admitir que falar é muito fácil e sou ótima na teoria, mas na prática as coisas mudam muito. Basta que eu me distraia por um momento para que algo diferente aconteça e para que eu, que pensava que nada mais poderia me abalar, ser pega desprevenida.
Sem saber o que fazer ou falar: fico atônita. Não me atrevo a mover sequer um ladinho da sobrancelha. Não sorrio, não choro, nem mesmo uma interjeição ousa sair da minha boca. Mas também não consigo deixar de lado a mania de viver tudo do meu jeito, de viver situações inimagináveis, de sonhar com um futuro distante e melhor.
Logo um friozinho percorre o meu corpo e traz a certeza de que a vida estará sempre disposta a me surpreender. Que alívio.
1 comment 22 22UTC Maio 22UTC 2009
Marcia
Hoje
Hoje eu estou rindo à toa. Engana-se quem pensa que é por estar absolutamente feliz, a felicidade vai e vem. Simples assim. Se eu sorrio é para disfarçar a minha surpresa. De repente ficou tudo tão esquisito.
Hoje ela disse que me perdoa, que tem um bom coração, uma mente evoluída. Mas quem pediu para ser absolvido? Só pode ser piada. Não pretendo posar de vítima, mas estou longe, bem longe, de ter que carregar essa culpa.
Hoje ele perguntou o que aconteceu, o que eu fiz ou deixei de fazer. Acho que ele pensa que eu o enganei o tempo todo e onde foram parar meus argumentos quando preciso me defender? Sumiram, estou sozinha. As minhas poucas palavras contra as dele. A minha consciência tranqüila.
Hoje eu não quero entender ou ser compreendida. Não quero ser triste nem feliz. Nem condenada nem inocente.
Hoje eu só quero ver a vida passar.
Add comment 21 21UTC Maio 21UTC 2009
Marcia
Mocinhos e bandidos
Cresci ouvindo estórias de mocinhos e bandidos, de princesas e bruxas, do bem contra o mal. Entretanto, quanto mais o tempo passa mais percebo como é tênue a linha que separa os certos dos errados. A verdade é que somos heróis das nossas próprias fábulas. Mas alguém sabe exatamente seu papel na estória contada pelos outros?
O menino que se apaixona pela namorada do melhor amigo, a garota que ganhou a bolsa de estudos que todos ralaram muito para disputar ou aquela viagem que a turma toda estava doida para ir. Duvido que alguém nunca tenha posado de malvado, mesmo jogando limpo, mesmo sem querer.
E parece fácil condenar quem ‘roubou’ a namorada do fulano ou a oportunidade da vida do outro, como se tudo fosse nada além de mercadoria disponível numa série de prateleiras. O que poucos percebem é que além de coragem para assumir um amor proibido ou alçar vôo para uma nova vida, é preciso caráter. Pelo menos para fazê-lo da melhor forma, que não é precisamente a que vai agradar a todos e sim a mais justa. Engana-se quem pensa que estas decisões não são sofridas. Porém, não é porque eu amo e sou correspondido, ou porque estudei parar tirar a melhor nota que estou passando alguém para trás.
Caráter também é indispensável para quem chega em segundo lugar. É preciso saber aceitar que a vida é composta por vitórias e derrotas, e independente do resultado sair de campo de cabeça erguida. Nem tudo é como imaginamos. E, sem querer posar de conformista, as coisas sempre ficam do melhor jeito para nós. Mesmo que na hora fique complicado de perceber.
Claro que desconsidero totalmente quem faz suas malvadezas em sã consciência. Não sou tão ingênua a ponto de acreditar que tudo são flores e todos são cheios de boas intenções. Se existe terreiro de macumba é porque de fato alguém deve passar por lá. Armas seriam inúteis se ninguém as manuseasse. Todavia, acredito que bons ou ruins todos cometem erros e estão bem longe de ser perfeitos.
Confesso que me assusta a idéia de ser vilã na estorinha dos outros. Mas sei que é algo que inevitavelmente vou encarar. O que não aceito é posar de malvada por intrigas ou golpes baixo. Também é estreita a linha entre quem é mocinho ou bandido, e tem gente que sabe virar esse jogo muito bem.
Add comment 20 20UTC Maio 20UTC 2009
Marcia
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