Meu medo

Se você prometer que não fala para ninguém eu conto meu segredo. A verdade é que não sou tão corajosa quanto pareço. Este escudo em que está escrito nada-do-que-você-possa-fazer-me-abala que fica sempre diante de mim é só uma forma que encontrei para me defender. Às vezes sinto tanto medo.

Não pense que tenho receio de andar pela casa no escuro, ficar presa no elevador, passar por uma turbulência ou ver assombração. Isso eu tiro de letra, até porque já estou bem grandinha. Não temo o subjetivo, não me assustam os fenômenos ocultos ou da natureza, sei que eles ninguém pode controlar. Tenho medo é das pessoas que andam bem vivinhas por aí.

Desde pequena busco o meu jeitinho de existir. Descobri que para ser feliz precisamos aprender a não levar tudo tão a sério, percebi que devemos reconsiderar o que fazem e falam para nós ou de nós. Já não me surpreende a idéia de ouvir fofocas ridículas ou ser assunto em rodinha de desocupados e maldosos de plantão. Mesmo assim há momentos em que fica difícil abstrair. Por mais que eu procure fingir que não escutei, fazer de conta que não sei nem vi nada, algumas palavras e situações me machucam demais por dentro.

Eu sei que a fulana traiu a minha confiança, vi a cara que o cicrano me olhou, ouvi o que a beltrana disse a meu respeito. O que eu faço? Saio de perto com meu sorriso indiferente. Mas confesso que há mentiras e falsidades que me magoam além do que deveriam. E eu, que poso de inabalável, fujo para o meu quarto e choro como criança. Não porque me sinta atingida por quem não merece a minha atenção e sim porque na minha procura doida por uma vida em paz eu calo quando quero gritar, espernear, falar tudo o que eu penso e não penso.

Entretanto, deixo o meu desejo de ser barraqueira por um dia para quem sabe uma participação numa peça de teatro. Não acredito que fazer escândalo seja a maneira mais apropriada de me fazer ouvir. Também não creio que para ser compreendida é necessário que todos os pingos nos is sejam colocados. Não preciso pôr à prova meu caráter ou minhas intenções. Cedo ou tarde a verdade vem à tona e faz meu silêncio valer a pena.

Ah, tudo bem, eu confesso: morro de medo de ventilador de teto.

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