A chave


Morro de medo de cavalos. E esse trauma nem é meu: assistir a alguns tombos alheios foi suficiente para eu passar a relutar em subir no lombo do bicho.

Quando eu tinha quatro anos vi minha irmã deslizar com pelego e tudo de cima do velho Alazão e cair num arbusto daqueles repletos de espinhos. Algum tempo depois a égua Xuxa saiu em disparada com ela na garupa. Por sorte minha irmã saltou pouco antes de atingir uma cerca. Eu também estava por perto quando um cavalo se assustou, derrubou minha prima numa pedra e a deixou com um roxo de um palmo na perna esquerda. Assim, minha experiência eqüina praticamente se limita às vezes em que minha mãe me colocava no cavalo para tirar fotos. Eu apareço aos prantos em todas, é claro.

Nos relacionamentos costumo agir da mesma forma. Já me decepcionei algumas vezes. Porém, não são as minhas experiências que anseio em não reviver, tenho medo só de observar o namoro dos outros. Ou as pessoas se trancam em caixinhas de tijolo com cimento, ou vivem em pé de guerra, ou as duas coisas.

Eu não posso ver um passarinho na gaiola que já quero logo abrir a portinha. Imagine então quando se trata de uma pessoa. Acho o fim não poder ir a uma festa ou mesmo à academia, não ter direito a cumprimentar alguém do sexo oposto ou até do mesmo sexo, não ter permissão para usar as roupas que eu bem entender ou ver os filmes que eu quiser. Ter alguém para me dizer o que posso ou não fazer significa o mesmo que assinar o atestado de depressão absoluta para mim.

E tem mais: meus ouvidos nem escutam freqüências muito altas. Ou seja, gritos não entram por um ouvido nem muito menos saem por outro, eles passam batido por mim. Detesto hostilidades ou grosserias. Se a pessoa não sabe resolver uma pendenga na conversa, não deveria sequer ter direito a cordas vocais. E os amantes de hoje adoram um escândalo, deusmelivre. Como se isso tudo não bastasse, não consigo lembrar do último namorado leal que conheci.

Ao contrário do que você possa imaginar minha relação com os cavalos não terminou na infância. Lá de vez em quando me arrisco a subir no lombo de um, daqueles que quase não anda de tão velhinho, e dar umas voltinhas só para fingir para mim mesma que não tremo por dentro. A verdade é que tenho medo, mas gosto. Assim como adoro namorar. Entretanto, já não me basta a chave do coração, quero também a do cativeiro.

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