Doces ranzinzas

Todos os velhinhos são ranzinzas. E me arrisco sem medo a generalizar: não conheço uma pessoa com mais de setenta anos que não tenha os seus momentos de rabugentice. Por mais que hoje tenhamos consciência para criticar, a idade vai chegar e trazer uma implicância ali, um mau humor acolá. É um ciclo. Não há como fugir. Sou capaz de apostar.

Talvez o passar dos anos nos traga, além de experiência, certa intolerância. Durante a juventude ficamos calados diante de tantas situações, somos constantemente provocados e recuamos receosos de vivenciar confrontos desnecessários. Queremos evitar cabelos brancos, rugas e pontes de safena. Problemas de estética e de saúde que a maturidade já não tem medo algum de enfrentar.

Também não posso negar a sabedoria dos mais velhos. Uns têm mesmo dificuldade para falar, ler e ouvir. Outros se fazem de mudos, cegos e surdos quando o assunto não evolui ou a companhia não agrada. Há os hipocondríacos, os que usam a birra e a manha para chamar a atenção dos seus filhos e netos. E também aqueles que não medem as palavras na hora de reclamar algo ou de xingar alguém.

Quando cheguei à casa de minha avó materna hoje a tarde ela não me recebeu com o sorriso habitual. Seus noventa anos fazem com que o seu humor seja variável e cabe aos meus vinte e alguns respeitá-la. Estava me despedindo quando a minha mãe a repreendeu em tom de brincadeira. Disse que sua ranzinzice já estava me deixando receosa em visitá-la.

No mesmo instante a expressão da minha vó mudou. Ela me convidou para sentar e puxou uma caixa com algumas fotos antigas. Com o jeito terno que só mesmo as nossas avós são capazes de ter me mostrou uma a uma, enquanto comentava quando bateu cada retrato, onde estava e com quem. Falou do apelido carinhoso que costumava chamar meu avô, deixando implícita em seus olhos a saudade que sente dele. Depois levantou e experimentou o roupão e a manta que ganhara no dia anterior pelo Dia das Mães, mostrou os outros presentes com o mesmo desprendimento.

Dei um beijo em sua testa e me despedi aliviada. Com o passar dos anos a gente não perde o senso de rabugentice, ficamos ranzinzas de espertos, ranzinzas de cansados, ranzinzas de manhosos. E o mais interessante: ranzinzas conscientes.

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