Um milagre por dia

Se há uma certeza sobre a vida é a de que definitivamente ela passa. Várias coisas vem acontecendo e me fazendo pensar mais e mais nessa efemeridade maluca. Fatalidades no trânsito que deixam jovens em coma ou matam inocentes que estavam apenas cumprindo suas rotinas, uns são vítimas de negligência ou falta de atendimento médico, outros simplesmente deixam de respirar. Mais do que me tocar fundo, isso faz com que eu me pergunte: e se tudo terminar amanhã?

Ainda no ano passado, em meio aos preparativos para o casamento, passei um fim de semana em Torres com o marido – como sempre buscando refúgio na nossa praia favorita. Num sábado normal, acordei, fui direito para o banho e uma experiência muito curiosa me aconteceu. Lembro que me faltou o ar e gritei pelo Luiz Felipe. Depois disso, tudo o que vi foram luzes piscantes num túnel escuro que flutuava, e a sensação era maravilhosa e relaxante como em todo o sonho bom.

Instantes depois lá estava eu de volta ao banheiro. Sentada no chão, com a voz do Luiz Felipe batendo de leve no meu rosto. Imediatamente ele me ajudou a ir para a cama e comecei a chorar compulsivamente. O que poderia ser aquilo? Não conversei com nenhum especialista e não sei ao certo o que me ocorreu. Mas, alguns dias depois, percebi que o vapor do chuveiro não combina com janelas fechadas que também não tem nada a ver com a oxigenação do cérebro. Ou seja, eu poderia não estar mais aqui para escrever e contar o que me aconteceu.

Com essa experiência eu aprendi duas coisas. Se o que eu senti foi uma experiência de quase morte, não há o que temer. Morrer não machuca, não dói, não dá tempo. A gente voa, regogiza e nem sente. Por outro lado, viver é que é uma maravilha. Conviver com pessoas que nos deixam felizes com um simples sorriso, com animais que nos amam pelo simples fato de existirmos e estarmos junto deles. Fazer as coisas que gostamos e sabemos que fazemos bem. Curtir os pequenos prazeres da vida, que podem ser andar de bicicleta, fazer exercícios, brincar com crianças ou cachorros, tomar um drink com os amigos e até mesmo comer a nossa guloseima favorita. É pecado querer que esses bons momentos nunca se acabem?

Viver é um milagre que acontece todos os dias quando abrimos os olhos. A gente só precisa acordar.

Cheguei, chega!

Estou de volta. Não só ao Brasil, mas à minha vida. Ao país vim de mala e cuia há exato um mês. Trouxe comigo uma saudade que não coube na mala e um vontade de abraçar a minha rotina brasileira e enchê-la de beijos – mesmo tendo tido vida de princesa no exterior. À minha realidade? Bem, isso está acontecendo aos poucos.

O problema de estar perto de quem nos viu crescer é que surgem todos os preconceitos e julgamentos tão gostosos e fáceis de evitar há milhares de quilômetros de distância. E de quem nos conhece só de vista então: vem todas as respostas e fofocas que nos dão de graça, sem a gente nem pensar em perguntar ou instigar nadica de nada. E confesso que essa vida real não está sendo muito agradável de encarar.

Tudo parece se encaminhar naturalmente: amigos, entretenimento, trabalho. Voltei gordinha, feliz, com uma auto estima no céu e um bronze de um dourado tão, mas tão lindo que nunca ao menos pensei em ostentar. E o mais importante: saúde nota 10. Os quilinhos a mais eu deixaria na Austrália e não tenho medo ou vergonha alguma de confessar. Mas já decidi: só vou lembrar que eles existem a partir de março, quando o calor de Santa Maria da Boca do Monte não marcar mais a sensação térmica de 50 graus e eu tiver disposição para malhar.

E por mais que eu abstraia este ou outros defeitos sempre vai haver alguém fazendo questão de esfregá-los na minha cara. Entretanto, o curioso é a gravidade dos meus desacertos: meu peso, meu peito grande, meus amigos e minha mania de ser boa moça. E como vim ao mundo com o lado Poliana extremamente evoluído achei isso lindo. Ninguém pode abrir a boca para dizer nada ruim a meu respeito. Nunca fiz mal a uma formiga.

Tudo o que se pode dizer de maldoso sobre mim é tão fútil… Mas faço questão de esclarecer:

1) Se eu estivesse preocupada com o número do meu manequim estaria de dieta.

2) Se eu não gostasse do tamanho do meu peito ou dos meus pneuzinhos faria uma plástica – de graça pelo plano de saúde – e de quebra me submeteria a uma ou várias lipos para aproveitar a anestesia geral. E lógico, não abusaria dos decotes como sempre faço.

3) Amigos são amigos, conhecidos são conhecidos, fofoqueiros são fofoqueiros e desocupados são desocupados. Simples.

4) Se eu não fosse boazinha faria para as pessoas o mesmo que elas fazem para mim. E quem sabe aí elas me respeitariam, não? É, mas nasci com este coração bobo. Desculpa.

Agora, eu me pergunto: em que estas amenidades interferem ou mudam na vida de alguém? Será que minha vida é de extrema importância para a Nação? Portanto, mereço eu um Passaporte Diplomático assim como os filhos do Lula?

Sempre acreditei que inveja é um problema de quem tem. Mas tem uma hora que cansa. E a minha chegou.

Eu volto

Antes de eu embarcar para a Austrália minha mãe chorava no aeroporto. Eu entendia, mas acho que ninguém mais. Afinal, eram apenas seis meses. Meio ano que passa antes mesmo que as roupas do armário precisem mudar de estação. Mas eu entendia porque minha mãe me conhece de trás para frente. Sabe bem das minhas viagens de um mês que se transformam em três – e isso desde os meus dez anos de idade. Sabe bem da minha mala sempre pronta para partir. E talvez não mais voltar.

O que minha mãe não sabe – e que eu também não sabia – é o quanto eu amo a minha vida no Brasil. Aqui eu recebo em dólar, conheço pessoas de todo o mundo, divido experiências, realizo sonhos e cresço um pouco mais a cada dia. Posso caminhar em praias paradisíacas ou ir ao Opera House quando eu bem entender. Aqui tenho amigos, tenho carinho, tenho tudo. Quase tudo. A verdade é que nada se compara à maneira com que me sinto quando estou no meu chão, dormindo na minha cama, conversando com minha cachorrinha, comendo comidinha caseira.

E não é só pelo trabalho – que aqui é duro – ou pela falta do conforto das roupas lavadas, das louças limpas e do quarto sempre arrumado que digo que volto logo. É pela falta que me fazem as pessoas com quem convivia. As pessoas que me fazem sentir a pessoa mais amada do mundo a cada momento em que as lembro ou ouço suas vozes pelo telefone.

É o amor que sinto no Brasil que faz esse mundo lindo e imaculado que conheci se tornar tão frio e distante. São elas que me dão a certeza de que por melhor que seja a qualidade de vida e promissoras que sejam as perspectivas, a vida que construímos em mais de vinte anos é o que realmente importa. Cada pessoa que nos ama com sinceridade completa um tantinho insubstituível da gente. E nos fazem sempre voltar para mais.

Em nova versão

As pessoas que convivem comigo são unânimes em dizer: a Marcinha mudou. Talvez por isso eu não escreva há algum tempo. Não percebo mudança qualquer. Ou não quero perceber.

É verdade que na minha vida muita coisa está diferente. Consegui, enfim, terminar meu trabalho de conclusão de curso e agora sou uma Jornalista. O mais legal disso é que o blog que você está lendo foi uma peça mais do que importante para eu assegurar meu diploma: suas páginas virtuais foram reunidas e transformadas num livrinho de crônicas. Mérito meu e de todas as pessoas que um dia já dedicaram um minuto de seu tempo e mandaram recados me incentivando a fazer isso. Um pecadinho do meu livro é de cada um de vocês – obrigada.

O que eu posso dizer é que agora me sinto livre. Terminar a faculdade era um fantasma que vinha me assombrando cada vez mais assustadoramente. E, mesmo que eu ainda não esteja certa de que esta é realmente a profissão que quero seguir, agora me sinto livre para pensar o futuro com mais leveza. Para deixar meu lado aventureira voltar à tona e me levar a lugares que eu sempre sonhei conhecer.

Confesso que meu temperamento tem me surpreendido. Não sou mais tão inocente, tão indefesa, eu diria. Eu não brigo, mas me defendo. Falo alto, argumento. Fico braba, furiosa até. E estou gostando disso. Nada de acatar o que eu não aceito. Sou justa comigo e com minhas convicções.

Sou intolerante. Esse foi sempre o meu pior defeito e para deixar as coisas muito mais difíceis ele se agravou. O bom é que eu tenho consciência disso e tento dar uma controlada. Mas vira e mexe fecho o tempo porque a amiga não ligou na hora combinada, porque o namorado deu uma leve pisada na bola ou por qualquer razão que normalmente merececia uma alforria imediata. Claro que essas tolices não chegam a ser motivo para discussão, mas me fazem tirar o sorriso do rosto e decretar sem rodeios: ele só volta amanhã.

No meio de uma infinidade de nuances que indicam uma Marcinha diferente, tento encontrar minha nova personalidade. Lógico, carregada de certezas: somos muito daquilo que queremos ser, sou romântica sim – mas uma romântica que acima de tudo ama a si mesma, e, claro, não viveria sem príncipes, princesas e a possibilidade de transformar minha vida num conto de fadas de diversas histórias.

O casamenteiro

Meu tio chegou da missa me trazendo um pãozinho que dizia ser bento. Era um dia de homenagens a Santo Antonio e come-lo era como uma promessa de sorte nos futuros enlaces. Ele me assegurou.

Puxei uma migalha e mastiguei sem vontade. Era tão duro que só poderia ser pão dormido. Como estava com fome e sem pretensão alguma de fazer uma desfeita ao casamenteiro, corri para a cozinha, recheei o pãozinho com queijo e coloquei para tostar.

Logo que acabei de me deliciar minha irmã me advertiu: o Santo poderia encarar aquilo como uma ofensa e não colocar nem por decreto um pretendente no meu caminho. Comer o pão seco e a seco era o que eu deveria ter feito. Um belo romance valeria o sacrifício.

Nunca fiz simpatia para Santo Antonio. Nunca fiz um pedido sequer. Não que eu não acredite no poder de suas benções. Pelo contrário, sei de muita gente que juntou os trapos e colocou até imagem do Santo no quarto. O problema é que eu não sou como a maioria. Talvez por isso eu esteja solteira (e serelepe) por algum tempo. Talvez por medo de deixar de ser eu mesma quando o tal pretendente chegar.

Brincar com as simpatias de Santo Antonio é uma forma de proteger o meu jeitinho do mundo. Além de que, é claro, se o pãozinho fosse mesmo me ajudar em alguma coisa certamente não seria de ontem.

Não leia

Não leia o meu blog. Se você quer namorar, casar e ter filhinhos comigo fique longe dos meus escritos.

Não me entenda mal. Não é que você não possa me conhecer ou saber as idéias que passam pela minha cabeça e coloco por aqui quase sem querer. Pelo contrário, se você pretende passar o resto dos seus dias ao meu lado nada mais justo do que saber de mim de trás para frente, conhecer os meus trejeitos, as minhas manias. O que me incomoda é você receber tudo assim, de mão beijada. Sem mistérios ou ilusões.

Tenho medo que com os textos você tire conclusões precipitadas sobre mim. Não quero rótulos ou expectativas. Quero é que as horas que passamos juntos atestem a minha personalidade. Quero que você dê o seu próprio veredicto.

Também é ruim pensar que você pode ficar chateado ou intrigado com algum texto. Ou ainda: é desconfortável crer que você pode tentar me ler nas entrelinhas, procurar supostas mensagens subliminares e entender tudo errado. Alem disso, não suporto interrogatórios inúteis. Perguntas sobre o que escrevo ou deixo de escrever podem me reprimir. Eu não quero censuras.

Compreendo e respeito a sua curiosidade. Eu admito que leria cada letrinha que você escrevesse. E faria de tudo para que você não percebesse, claro.

Então vamos combinar assim: você finge que não sabe do meu Diário e fica por isso mesmo.

Quando sou triste

Entre uma gargalhada e outra, numa mesa de bar, uma garota que conheço desde os tempos de colégio – e com quem pouco convivo – me perguntou se alguma vez na vida eu já fiquei triste.

A pergunta me espantou tanto que sequer consegui responder de imediato. Percebendo meu embaraço, ela prosseguiu: “sempre te vejo com um sorriso gigantesco no rosto, sempre soltas brincadeiras ou piadas, sempre tens uma palavra para alegrar e espantar qualquer desânimo”. A menina falava aquilo de forma tão positiva, de maneira tão carinhosa, que fiquei com dó não atender suas expectativas e esbocei um sorriso de concordância, daqueles com a boca retorcida.

Mas como sou péssima com mentiras ou omissões e não consigo manter segredos meus, vou logo assumir: eu fico triste, todos os dias, invariavelmente.

Consigo ser feliz e infeliz ao mesmo tempo. Livros e filmes, documentários e notícias, facilmente fazem brotar esses dois sentimentos aqui por dentro. Emoções perceptíveis a olho nu, meu olhar se nubla enquanto meu coração amolece meus lábios. Aliás, para saber de mim procure reparar nos meus olhos, eles não foram feitos para enganar.

Um pai de família que perde os limites da dignidade para sustentar seus filhos. Uma mentira mal contada por quem teme as conseqüências da verdade. Um amigo que parte para um rumo irreversível. Uma criança criada com muito dinheiro e pouco afeto. Um animalzinho mal tratado. Posso estar saltitante caminhando pela rua, mas é só presenciar uma cena que envolva qualquer desses diagnósticos para eu que absorva todo o drama dos outros e os recrie dentro de mim. Sou uma esponja sentimental. E sim: sou muito triste até na minha alegria.

Sou triste também quando o e-mail não chega, assim como o pagamento ou o namorado que prometera me ver no final de semana. Sou jururu quando a gripe me ataca, quando as amídalas trancam minha garganta e não consigo falar. Sou infeliz quando não sou ouvida, não sou amada, não sou amiga de quem confia em mim. Sou borocoxô quando me decepciono com minhas próprias atitudes ou com a falta delas. Sou melancólica no colorido do meu quarto, com as luzes apagadas e o som ligado.

Mas só me vê triste quem consegue me ver sozinha. Para as outras ocasiões é que foram criados os óculos escuros e os sorrisos amarelos.