Desculpa?

Desculpa. Não há outra forma de voltar a escrever senão me desculpando aos leitores pelos anos – sim, dois anos precisamente – de ausência. Para ser sincera não espero ainda ter leitor algum, nem mereço, mas sei que devo essas palavras… A mim mesma também.

Também gostaria de agradecer às pessoas que não desistiram de me mandar emails pedindo para que eu voltasse a escrever. Às mensagens que me surpreenderam e me fizeram chorar de felicidade: muito obrigada de coração. Quero também me desculpar por não tê-las respondido à altura. O tempo andava – e ainda anda – curto. Mas se eu ganhar outra chance prometo me redimir.

A verdade é que muita coisa mudou nesses dois anos. Eu mudei. Experimentei, amadureci, fui em frente, mudei de ideia. E assim eu sigo…

Hoje, há exatos 10 minutos atrás, decidi que precisava de um blog, pelo mesmo motivo que criei esse há algum tempo. Preciso de um lugar para expor e eternizar meus pensamentos e também todas as coisas boas que tem acontecido comigo. Pensei também em criar um novo espaço, com minha nova cara, e sem meu passado tão exposto. No entanto, decidi que o que passou é o que nos forma e de certa maneira nos prepara para o que somos nesse momento.

Sendo assim, estou de volta ao Diário da Marcinha e aqui pretendo dividir tudo o que eu penso, tudo o que acontece comigo. Só não sei se com outras pesssoas ou comigo mesma…

Bem aqui

Deus não nos dá um fardo maior do que o que podemos carregar. É batido, é cliché. Mas é tão consolador. É difícil pensar que Deus vê e escuta de braços cruzados a tudo o que ouço e tenho que vivenciar. É duro acreditar que Ele esteja assistindo parado às tristes cenas de destruição e dor causadas pelas enchentes no sudoeste do Brasil. Olhar por nós e nos proteger não é o Seu papel?

Tenho chorado muito desde que voltei. Meus pais entendem o motivo, só eles, não me arrisco nem a explicar a mais ninguém. Sei que não compreenderiam. Quem não presencia uma dor, quem não a sente, não pode mesmo julgar ou opinar. Minhas lágrimas são só minhas. Estão guardadas aqui dentro desde que me conheço por gente. Já passou da hora de coloca-las para fora e ninguém pode fazer isso por mim.

Por outro lado, as gotas que escorrem pelos meus olhos e encharcam meu rosto parecem tão mesquinhas quando se misturam às que deslizam inevitavelmente enquanto assisto ao noticiário. Lágrimas do machucado de perder tudo. De não só ficar sem os anéis, mas também sem os dedos, sem as bases, e mesmo assim ter que encontrar motivos para começar de novo.

E é aí que sinto bem forte a presença do Todo Poderoso: na hora de recomeçar. É muito fácil se deixar levar pela correnteza que carrega nossas estruturas por água abaixo. É fácil desistir de tudo. Mas é justamente nessa hora que uma luz brilha dentro de nós e nos dá forças que antes nem imaginávamos que tínhamos. É uma ajuda que chega dos lugares mais remotos, um voluntário que se emociona com um simples ‘muito obrigado’ de quem renasceu em suas mãos, uma pessoa que é salva e nos mostra o quanto é bonito viver. É a esperança de sentir que a vida vale a pena.

Se Deus nos entrega um presente de grego não significa que Ele queira que o coloquemos de lado e sigamos vivendo. Pelo contrário. Ele deseja é que seus filhos amadureçam. Ele quer que a gente enfrente as adversidades, que a gente caia, sofra e se machuque muito. Ele quer que a gente levante mais forte e com mais ganas de não desistir jamais.

Cheguei, chega!

Estou de volta. Não só ao Brasil, mas à minha vida. Ao país vim de mala e cuia há exato um mês. Trouxe comigo uma saudade que não coube na mala e um vontade de abraçar a minha rotina brasileira e enchê-la de beijos – mesmo tendo tido vida de princesa no exterior. À minha realidade? Bem, isso está acontecendo aos poucos.

O problema de estar perto de quem nos viu crescer é que surgem todos os preconceitos e julgamentos tão gostosos e fáceis de evitar há milhares de quilômetros de distância. E de quem nos conhece só de vista então: vem todas as respostas e fofocas que nos dão de graça, sem a gente nem pensar em perguntar ou instigar nadica de nada. E confesso que essa vida real não está sendo muito agradável de encarar.

Tudo parece se encaminhar naturalmente: amigos, entretenimento, trabalho. Voltei gordinha, feliz, com uma auto estima no céu e um bronze de um dourado tão, mas tão lindo que nunca ao menos pensei em ostentar. E o mais importante: saúde nota 10. Os quilinhos a mais eu deixaria na Austrália e não tenho medo ou vergonha alguma de confessar. Mas já decidi: só vou lembrar que eles existem a partir de março, quando o calor de Santa Maria da Boca do Monte não marcar mais a sensação térmica de 50 graus e eu tiver disposição para malhar.

E por mais que eu abstraia este ou outros defeitos sempre vai haver alguém fazendo questão de esfregá-los na minha cara. Entretanto, o curioso é a gravidade dos meus desacertos: meu peso, meu peito grande, meus amigos e minha mania de ser boa moça. E como vim ao mundo com o lado Poliana extremamente evoluído achei isso lindo. Ninguém pode abrir a boca para dizer nada ruim a meu respeito. Nunca fiz mal a uma formiga.

Tudo o que se pode dizer de maldoso sobre mim é tão fútil… Mas faço questão de esclarecer:

1) Se eu estivesse preocupada com o número do meu manequim estaria de dieta.

2) Se eu não gostasse do tamanho do meu peito ou dos meus pneuzinhos faria uma plástica – de graça pelo plano de saúde – e de quebra me submeteria a uma ou várias lipos para aproveitar a anestesia geral. E lógico, não abusaria dos decotes como sempre faço.

3) Amigos são amigos, conhecidos são conhecidos, fofoqueiros são fofoqueiros e desocupados são desocupados. Simples.

4) Se eu não fosse boazinha faria para as pessoas o mesmo que elas fazem para mim. E quem sabe aí elas me respeitariam, não? É, mas nasci com este coração bobo. Desculpa.

Agora, eu me pergunto: em que estas amenidades interferem ou mudam na vida de alguém? Será que minha vida é de extrema importância para a Nação? Portanto, mereço eu um Passaporte Diplomático assim como os filhos do Lula?

Sempre acreditei que inveja é um problema de quem tem. Mas tem uma hora que cansa. E a minha chegou.

Eu volto

Antes de eu embarcar para a Austrália minha mãe chorava no aeroporto. Eu entendia, mas acho que ninguém mais. Afinal, eram apenas seis meses. Meio ano que passa antes mesmo que as roupas do armário precisem mudar de estação. Mas eu entendia porque minha mãe me conhece de trás para frente. Sabe bem das minhas viagens de um mês que se transformam em três – e isso desde os meus dez anos de idade. Sabe bem da minha mala sempre pronta para partir. E talvez não mais voltar.

O que minha mãe não sabe – e que eu também não sabia – é o quanto eu amo a minha vida no Brasil. Aqui eu recebo em dólar, conheço pessoas de todo o mundo, divido experiências, realizo sonhos e cresço um pouco mais a cada dia. Posso caminhar em praias paradisíacas ou ir ao Opera House quando eu bem entender. Aqui tenho amigos, tenho carinho, tenho tudo. Quase tudo. A verdade é que nada se compara à maneira com que me sinto quando estou no meu chão, dormindo na minha cama, conversando com minha cachorrinha, comendo comidinha caseira.

E não é só pelo trabalho – que aqui é duro – ou pela falta do conforto das roupas lavadas, das louças limpas e do quarto sempre arrumado que digo que volto logo. É pela falta que me fazem as pessoas com quem convivia. As pessoas que me fazem sentir a pessoa mais amada do mundo a cada momento em que as lembro ou ouço suas vozes pelo telefone.

É o amor que sinto no Brasil que faz esse mundo lindo e imaculado que conheci se tornar tão frio e distante. São elas que me dão a certeza de que por melhor que seja a qualidade de vida e promissoras que sejam as perspectivas, a vida que construímos em mais de vinte anos é o que realmente importa. Cada pessoa que nos ama com sinceridade completa um tantinho insubstituível da gente. E nos fazem sempre voltar para mais.

Em nova versão

As pessoas que convivem comigo são unânimes em dizer: a Marcinha mudou. Talvez por isso eu não escreva há algum tempo. Não percebo mudança qualquer. Ou não quero perceber.

É verdade que na minha vida muita coisa está diferente. Consegui, enfim, terminar meu trabalho de conclusão de curso e agora sou uma Jornalista. O mais legal disso é que o blog que você está lendo foi uma peça mais do que importante para eu assegurar meu diploma: suas páginas virtuais foram reunidas e transformadas num livrinho de crônicas. Mérito meu e de todas as pessoas que um dia já dedicaram um minuto de seu tempo e mandaram recados me incentivando a fazer isso. Um pecadinho do meu livro é de cada um de vocês – obrigada.

O que eu posso dizer é que agora me sinto livre. Terminar a faculdade era um fantasma que vinha me assombrando cada vez mais assustadoramente. E, mesmo que eu ainda não esteja certa de que esta é realmente a profissão que quero seguir, agora me sinto livre para pensar o futuro com mais leveza. Para deixar meu lado aventureira voltar à tona e me levar a lugares que eu sempre sonhei conhecer.

Confesso que meu temperamento tem me surpreendido. Não sou mais tão inocente, tão indefesa, eu diria. Eu não brigo, mas me defendo. Falo alto, argumento. Fico braba, furiosa até. E estou gostando disso. Nada de acatar o que eu não aceito. Sou justa comigo e com minhas convicções.

Sou intolerante. Esse foi sempre o meu pior defeito e para deixar as coisas muito mais difíceis ele se agravou. O bom é que eu tenho consciência disso e tento dar uma controlada. Mas vira e mexe fecho o tempo porque a amiga não ligou na hora combinada, porque o namorado deu uma leve pisada na bola ou por qualquer razão que normalmente merececia uma alforria imediata. Claro que essas tolices não chegam a ser motivo para discussão, mas me fazem tirar o sorriso do rosto e decretar sem rodeios: ele só volta amanhã.

No meio de uma infinidade de nuances que indicam uma Marcinha diferente, tento encontrar minha nova personalidade. Lógico, carregada de certezas: somos muito daquilo que queremos ser, sou romântica sim – mas uma romântica que acima de tudo ama a si mesma, e, claro, não viveria sem príncipes, princesas e a possibilidade de transformar minha vida num conto de fadas de diversas histórias.

O casamenteiro

Meu tio chegou da missa me trazendo um pãozinho que dizia ser bento. Era um dia de homenagens a Santo Antonio e come-lo era como uma promessa de sorte nos futuros enlaces. Ele me assegurou.

Puxei uma migalha e mastiguei sem vontade. Era tão duro que só poderia ser pão dormido. Como estava com fome e sem pretensão alguma de fazer uma desfeita ao casamenteiro, corri para a cozinha, recheei o pãozinho com queijo e coloquei para tostar.

Logo que acabei de me deliciar minha irmã me advertiu: o Santo poderia encarar aquilo como uma ofensa e não colocar nem por decreto um pretendente no meu caminho. Comer o pão seco e a seco era o que eu deveria ter feito. Um belo romance valeria o sacrifício.

Nunca fiz simpatia para Santo Antonio. Nunca fiz um pedido sequer. Não que eu não acredite no poder de suas benções. Pelo contrário, sei de muita gente que juntou os trapos e colocou até imagem do Santo no quarto. O problema é que eu não sou como a maioria. Talvez por isso eu esteja solteira (e serelepe) por algum tempo. Talvez por medo de deixar de ser eu mesma quando o tal pretendente chegar.

Brincar com as simpatias de Santo Antonio é uma forma de proteger o meu jeitinho do mundo. Além de que, é claro, se o pãozinho fosse mesmo me ajudar em alguma coisa certamente não seria de ontem.

Não leia

Não leia o meu blog. Se você quer namorar, casar e ter filhinhos comigo fique longe dos meus escritos.

Não me entenda mal. Não é que você não possa me conhecer ou saber as idéias que passam pela minha cabeça e coloco por aqui quase sem querer. Pelo contrário, se você pretende passar o resto dos seus dias ao meu lado nada mais justo do que saber de mim de trás para frente, conhecer os meus trejeitos, as minhas manias. O que me incomoda é você receber tudo assim, de mão beijada. Sem mistérios ou ilusões.

Tenho medo que com os textos você tire conclusões precipitadas sobre mim. Não quero rótulos ou expectativas. Quero é que as horas que passamos juntos atestem a minha personalidade. Quero que você dê o seu próprio veredicto.

Também é ruim pensar que você pode ficar chateado ou intrigado com algum texto. Ou ainda: é desconfortável crer que você pode tentar me ler nas entrelinhas, procurar supostas mensagens subliminares e entender tudo errado. Alem disso, não suporto interrogatórios inúteis. Perguntas sobre o que escrevo ou deixo de escrever podem me reprimir. Eu não quero censuras.

Compreendo e respeito a sua curiosidade. Eu admito que leria cada letrinha que você escrevesse. E faria de tudo para que você não percebesse, claro.

Então vamos combinar assim: você finge que não sabe do meu Diário e fica por isso mesmo.